Um diagnóstico técnico detalhado e ações judiciais revelam um cenário de deterioração avançada nas pontes que cortam Goiás, de rodovias federais à malha urbana de Goiânia. O alerta, amplificado pela recente tragédia no Maranhão, expõe estruturas antigas submetidas a cargas muito superiores às originalmente projetadas e uma histórica ausência de manutenção preventiva.
Na capital, 83% das estruturas estão doentes
Um levantamento da PUC Goiás, CREA-GO e IBAPE-GO avaliou 66 pontes e viadutos de Goiânia. O resultado é alarmante: aproximadamente 83% apresentam algum grau de deterioração. Os problemas vão desde falhas graves de drenagem (79% dos casos) até corrosão das armaduras de aço (62%). “A água é o principal agente de degradação. Enquanto não há drenagem adequada, a estrutura começa a adoecer”, explica a engenheira civil Juliana Matos, vice-presidente do CREA-GO. O estudo embasou uma ação do Ministério Público que determinou obras emergenciais em quatro pontes críticas, como a da Avenida T-63 sobre o Córrego Cascavel.
Rodovias: pontes históricas sob risco e o peso dos caminhões
O problema se repete nas estradas. A Ponte Affonso Penna, entre Itumbiara (GO) e Araporã (MG), é um símbolo desse descaso. Inaugurada em 1909 e tombada como patrimônio, opera com severas restrições devido à deterioração de seus pilares e corrosão.
Nas rodovias, o perigo é invisível. A ponte sobre o Rio das Almas, na BR-153, construída nos anos 1960, é um caso emblemático. Projetada para suportar veículos de até 32 toneladas, hoje enfrenta o tráfego constante de caminhões que podem chegar a 94 toneladas, graças a mudanças na legislação. “Não estamos dizendo que a ponte vai cair amanhã, mas ela precisa ser inspecionada e monitorada constantemente. Se nada for feito, o susto pode ser muito maior”, alerta o engenheiro doutor Rodrigo Carvalho da Mata.
Respostas das autoridades: programas em andamento, mas a conta é alta
Diante do risco, autoridades anunciam programas. O Governo de Goiás lançou o “Goiás em Movimento – Eixo Pontes”, com R$ 200 milhões para substituir cerca de 500 pontes de madeira por concreto. A Agência Goiana de Infraestrutura (Goinfra) afirma ter trabalhado em mais de 200 pontes estaduais.
No âmbito federal, o DNIT gerencia 114 pontes no estado através do PROARTE, um programa de manutenção. Concessionárias como a Rota Verde Goiás e a Ecovias Araguaia também informam planos de reforço em estruturas sob sua gestão, incluindo a polêmica ponte do Rio das Almas.
Especialistas, no entanto, são enfáticos: a solução permanente só virá com manutenção preventiva contínua e inspeções regulares, tratando as pontes como um “paciente” que precisa de exames de rotina. A lição é clara: esperar pela próxima tragédia anunciada é a política mais cara de todas.