12 de fevereiro de 2026
Mundo

Pesquisa feita relata que abortos já mataram mais vidas que todos os conflitos mundiais juntos.

Imagem reprodução.

Dados globais expõem contradições nos discursos sobre defesa da vida e escancaram silêncio seletivo

Enquanto a humanidade se horroriza — justamente — com os cerca de 1 bilhão de mortes causadas por guerras, genocídios e assassinatos em toda a sua história, um outro número silenciosamente ultrapassa qualquer estatística bélica. Desde 1980, estima-se que mais de 1,5 bilhão de abortos induzidos tenham sido realizados no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Instituto Guttmacher.

O número é estarrecedor. Para efeito de comparação: todas as guerras, conflitos étnicos, massacres e homicídios registrados desde o início da civilização — das batalhas da Antiguidade às duas Grandes Guerras, do Holocausto aos genocídios de Ruanda e Bósnia — somam aproximadamente 1 bilhão de mortes, conforme compilação do pesquisador Matthew White, do site Necrometrics.

Ou seja, em apenas 44 anos, o aborto já matou 50% mais pessoas do que toda a violência interestatal, civil e criminal da história.

O silêncio diante dos números

Os dados, amplamente disponíveis em relatórios acadêmicos e de organismos internacionais, raramente atravessam o debate público com a mesma contundência reservada a outras tragédias humanitárias. Enquanto memoriais, livros, filmes e políticas de reparação são dedicados às vítimas da violência armada, as vidas interrompidas por aborto permanecem na penumbra das estatísticas — quando muito, tratadas como questão de saúde pública, raramente como perda de vidas.

“Vivemos uma esquizofrenia moral”, afirma o filósofo e professor de ética Luís Fernando Prado, da Universidade Federal de Minas Gerais. “Mobilizamos recursos colossais para salvar bebês prematuros de 22 semanas, mas consideramos aceitável interromper uma gestação de 20 semanas por escolha da mãe. Não há consistência lógica ou biológica. O que há é uma decisão cultural sobre quais vidas são choradas e quais são contabilizadas.”

A seletividade do “pró-vida”

O debate sobre o aborto, no entanto, não se resume à polarização entre ativistas. Pesquisadores apontam que o fenômeno do milhão e meio de abortos anuais — taxa que se mantém estável há décadas — expõe contradições nos discursos de defesa da vida em diferentes espectros políticos.

“Curiosamente, muitos dos que condenam veementemente o aborto são os mesmos que defendem orçamentos generosos para guerras, pena de morte ou políticas de segurança pública letais”, observa a socióloga e pesquisadora em bioética Helena Carneiro, da Unicamp. “A vida que se diz defender é, com frequência, uma vida abstrata, enquanto vidas concretas — de presidiários, de inimigos externos, de populações civis em países em conflito — são descartadas com muito menos comoção.”

Por outro lado, parcela significativa do movimento feminista e de organizações de direitos reprodutivos evita enfrentar o peso numérico do fenômeno. Quando instadas a comentar a magnitude dos 73 milhões de abortos anuais, as respostas tendem a deslocar o foco para a ilegalidade, a clandestinidade ou o sofrimento materno.

“Não se trata de negar a autonomia feminina ou a complexidade das gestações indesejadas”, pondera Carneiro. “Trata-se de reconhecer que, ao lado dessa autonomia, existe uma vida humana interrompida. Ignorar isso é construir um discurso tão incompleto quanto o daqueles que ignoram as condições materiais da mulher.”

O paradoxo da modernidade

Especialistas apontam que o fenômeno do aborto em massa é, em grande medida, um produto da modernidade. Antes do século XX, a mortalidade infantil era altíssima, mas o aborto induzido era significativamente menos comum — seja por limitações técnicas, seja por proibições religiosas e culturais amplamente compartilhadas.

Com o avanço da medicina, da contracepção e da jurisprudência, o aborto tornou-se seguro, acessível e, em muitos países, legalizado. Mas o que se esperava — uma redução drástica no número de procedimentos — não se confirmou. Ao contrário: quanto mais disponível o recurso, maior o número de gestações interrompidas.

“Resolvemos o problema da mortalidade materna por aborto clandestino, mas não resolvemos o problema do aborto em si”, resume o demógrafo britânico Colin Mason, autor de estudos sobre população e políticas reprodutivas. “Hoje, matamos bebês de forma limpa, asséptica e burocrática. Isso não é necessariamente um progresso moral.”

O peso de 1,5 bilhão

Para compreender a dimensão dos números, historiadores sugerem exercícios comparativos. O Holocausto matou 6 milhões de judeus. O aborto, a cada ano, mata o equivalente a 12 Holocaustos. A escravidão transatlântica removeu à força cerca de 12,5 milhões de africanos de seu continente — número que o aborto global supera a cada dois meses e meio.

“Se 1,5 bilhão de pessoas tivessem morrido em guerras desde 1980, estaríamos diante de um Tribunal Penal Internacional permanente e de um Plano Marshall global para reconstrução”, afirma o historiador Ruy Oliveira, da Universidade de São Paulo. “Como são mortes silenciosas, distribuídas em clínicas e hospitais, e não em campos de batalha, não exigem reparação, luto coletivo ou memória.”

Entre o direito e o luto

A advogada criminalista e professora de direitos humanos Marta Duarte defende que é possível — e necessário — sustentar duas ideias simultaneamente: a defesa do direito ao aborto legal e seguro e o reconhecimento de que ali ocorre uma morte.

“Uma coisa não exclui a outra”, afirma. “Podemos respeitar a decisão da mulher e, ainda assim, reconhecer que aquela intervenção interrompe uma vida humana em potencial. A recusa em admitir esse fato empobrece o debate e radicaliza as posições.”

Duarte cita países como Alemanha e Israel, onde o aborto é legalizado, mas o Estado mantém políticas de incentivo à maternidade, apoio financeiro a gestantes e campanhas de conscientização sobre a gestação. “Nesses lugares, o direito ao aborto não é tratado como um triunfo, mas como um recurso dramático. Aqui, transformamos em bandeira de afirmação.”

Uma conversa inacabada

Os números não mentem, mas também não falam sozinhos. Cerca de 1,5 bilhão de abortos em 44 anos é um fato. O que esse fato significa — tragédia, conquista, necessidade, fracasso coletivo — depende de quem interpreta e de quais valores orientam essa interpretação.

O que os dados sugerem, no entanto, é que a humanidade desenvolveu uma impressionante capacidade de produzir morte em larga escala — seja pela violência organizada, seja pela interrupção voluntária da gestação. E que, em ambos os casos, os discursos públicos raramente estão à altura da gravidade dos números.

“Ao contrário do que os ativistas de ambos os lados pregam, não há respostas simples”, conclui o filósofo Luís Fernando Prado. “Há, isso sim, uma responsabilidade compartilhada de olhar para esses números sem retórica, sem eufemismos e sem selecionar arbitrariamente quais vidas merecem ser contadas.”

Fontes: Organização Mundial da Saúde (OMS), Instituto Guttmacher, Necrometrics (Matthew White), relatórios do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU.

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