Mais do que uma crise energética, o conflito deflagrado há pouco mais de uma semana entre Estados Unidos e Israel contra o Irã está criando ondas de choque em cadeias de suprimento essenciais para a vida moderna. De acordo com análise da BBC News Brasil publicada nesta quinta-feira (12), o fechamento virtual do Estreito de Ormuz e os ataques a infraestruturas críticas já provocam desabastecimento e alta de preços em setores que vão da agricultura à tecnologia.
Embora o salto do petróleo para acima de US$ 100 o barril tenha sido o primeiro sinal visível, especialistas ouvidos pela BBC alertam para três efeitos colaterais particularmente graves:
1. Alimentos sob risco e alta de fertilizantes
O conflito atinge o coração da produção mundial de fertilizantes. Quatro dos maiores exportadores globais de nitrogenados (Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados) estão na região. A Qatar Energy, gigante do setor, suspendeu operações após ataques de drones ao seu fornecimento de gás. Além disso, um terço do suprimento mundial de fertilizantes está bloqueado no Estreito de Ormuz. O momento é crítico: agricultores do Hemisfério Norte se preparam para o plantio. Nos EUA, 25% das importações de fertilizantes ocorrem entre março e abril. O preço do produto já saltou de US$ 516 para US$ 683 por tonelada no Porto de Nova Orleans. “Isso não poderia ter acontecido em pior hora”, disse o agricultor americano Harry Ott à BBC. A ONU alerta para risco de fome em populações vulneráveis nos próximos meses.
2. Distribuição global de medicamentos comprometida
Dubai, centro logístico vital para a indústria farmacêutica global, sofreu danos em seu aeroporto (o mais movimentado do mundo) e no Porto de Jebel Ali devido a ataques. Pelo terminal da Emirates, especializado em cargas farmacêuticas sensíveis à temperatura (Emirates SkyPharma), e pelo porto, onde operam 400 empresas do setor, transitam produtos essenciais. A Índia, maior fornecedora mundial de medicamentos genéricos e responsável por 60% das vacinas do mundo, depende dessas rotas para exportar para 200 países, incluindo Brasil, EUA e Reino Unido. A interrupção, mesmo com rotas alternativas mais caras e lentas, deve elevar preços e reduzir a disponibilidade de remédios.
3. Impacto na indústria de metais, químicos e eletrônicos
A guerra afeta a produção de enxofre, subproduto do refino de petróleo do qual 24% vêm do Oriente Médio. Essencial para produzir ácido sulfúrico, o enxofre é crítico para extrair metais como cobre e níquel. A Indonésia, que produz mais de 50% do níquel mundial, já anunciou cortes na produção por falta do insumo vindo do Golfo, que responde por 75% de seu suprimento. Como o ácido sulfúrico também é vital para fabricar semicondutores e chips, a escassez pode atingir a produção de smartphones, computadores, carros e dispositivos de IA, repetindo a crise de oferta vivida na pandemia de covid-19.
A análise conclui que, caso o conflito persista, consumidores em todo o mundo começarão a sentir, num prazo de um a três meses, os efeitos nos preços dos alimentos e na disponibilidade de uma gama de produtos essenciais.