A mudança do principal evento natalino da Praça Cívica para o Centro Cultural Oscar Niemeyer representa uma perda simbólica para o sentido histórico, urbanístico e geoafetivo de sociabilidade do Centro Histórico, local da diversidade e democracia urbana por excelência, mas também uma adaptação à dinâmica rentista urbana atual de Goiânia, que tornou a zona envoltória do Shopping Flamboyant o metro quadrado mais caro da cidade. Então, assim, como o Centro Cultural Oscar Niemeyer não precisava ser construído naquela região, o Natal do Bem não precisaria ser realizado ali. A escolha dessa região para sediar essas benfeitorias não passa por razões práticas, mas, sim, retóricas, pois a gestão estadual quer dar um banho de loja simbólico na população da periferia, trazendo com ônibus fretado essas populações para perto da região mais eugenista da cidade, mas sem incentivar a criação de zonas planejadas de produção cultural nas periferias.
Eventos de grande porte, como o Natal do Bem, contribuem para a requalificação dos espaços públicos ou tendem a produzir usos temporários que não deixam legado urbano permanente?
Que o Natal do Bem é um evento bem-sucedido de empoderamento popular de um equipamento cultural, anteriormente público, voltado para as elites ricas, mas cafonas, pois, sem muito apreço pelas artes, não há dúvidas. Em 2019, o evento, ainda na Praça Cívica, tinha 50 mil participantes, e, a partir de 2021, passou a ser dividido entre Praça e Oscar, e nos anos seguintes, somente neste, quando teve um aumento significativo de visitação.
Mas esse sucesso relativo, não se deve à localização, propriamente, mas a uma mudança na curadoria dos eventos e da direção de artes e cênica, que passou a ter um padrão Disney, com uma programação cultural natalina variada, apesar de monotemática, resultando num incremento de investimento na política, que se tornou o carro-chefe da atuação política da primeira-dama, atual candidata ao Senado pelo UB. Além do mais, foi criado um transporte gratuito que conecta o Oscar ao Flamboyant e ao Centro, que, de fato, supre parte das deficiências do local.
Em certo sentido, o Natal do Bem requalificou o espaço do Oscar, mas de uma forma tão sazonal e monotemática, que só poderíamos comparar tal uso à transformação quase inevitável, porém reversível, de um cinema numa igreja evangélica, como ocorreu com as tradicionais e luxuosas salas do gênero no Centro. A lógica do Natal do Bem é a do Circo, pois inviabiliza outros usos do equipamento cultural por vários meses antes e depois do Natal, propriamente, devido à estrutura colossal com que é concedido, sem deixar um legado efetivo para o Niemeyer, porque, sem o Natal, o local volta a ser subutilizado; tanto é que, em 2023, o TBC usurpou o espaço cultural para adaptá-lo precariamente para instalar os estúdios da TV estatal TBC (que estava devidamente bem instalada na recém-reformada sede do antigo Cerne no Parque das Laranjeiras), sendo conhecido por disseminar o caiadismo e o bolsonarismo, ou seja, não tem caráter cultural e nem favorece o debate político de alto nível.
A descentralização das celebrações para bairros periféricos pode ser considerada uma política efetiva de democratização da cidade ou ainda depende de continuidade e investimentos estruturais para gerar impacto real?
Apesar de o CCON ser na beira da estrada, com a conurbação de Goiânia com Senador Canedo, criando inúmeros condomínios fechados com os seus paredões instransponíveis, não podemos considerar mais aquela região como periferia. Na verdade, podemos afirmar que a descentralização das celebrações para bairros periféricos é relativa, porque, ao retirar do Centro, sendo equidistantes para todas as periferias, o que, de fato, representa algum sentido de política efetiva de democratização da cidade, o evento afastou-se mais ainda de áreas como Zona Norte, Noroeste, Sudoeste e Oeste. Talvez, para esse sentido, fosse mais pertinente realizar o evento de maneira itinerante, por meio da criação de centros culturais nas periferias que permitissem descentralizar a cultura com programação anual.
Um paliativo, a meu ver, seria realizar o Natal do Bem no Mutirama, equipamento de lazer público mais perene que está subutilizado e precarizado. O investimento estrondoso para montar um Natal por 2 meses poderia deixar um legado muito maior se contribuísse para que o parque municipal fosse revitalizado e ressignificado por meio do evento natalino.
Os principais gargalos do patrimônio edificado em questão são a mobilidade, segurança e infraestrutura urbana, que, quando associados à concentração de milhões de pessoas num único equipamento cultural, como o Oscar Niemeyer, são multiplicados. O Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON) é um dos equipamentos culturais mais refratários da cidade, porque sua posição geográfica não favorece o empoderamento popular do espaço, tornando-o excêntrico demais.
Apesar de não ser tão ermo como o Monumento das Nações Indígenas em Aparecida de Goiânia (espaço idealizado por Siron Franco), o local é de difícil acesso para mobilidade pedestre, porque não se quer calçada para quem quiser se aventurar a fazer a travessia do shopping para o local, caminhando pelo calço da rodovia sem acostamento. Talvez, uma solução fosse construir uma passarela ou teleférico ligando o shopping ao espaço.
Um outro exemplo: se for funcionário da Prefeitura ou da ALEGO e quiser visitar o espaço a pé, ficará ilhado tentando atravessar a Rodovia GO-020. Se vier de carro do poder legislativo estadual e executivo municipal (Park Lozandes), você é simplesmente obrigado a seguir rumo ao Flamboyant pela GO, o que onera demais o deslocamento, pois serão muitos sinaleiros e engarrafamentos para conseguir pegar voltando a pista do lado do equipamento.
Com acesso para carro muito dificultado por ter uma entrada e só por uma das vias da GO, justamente no sentido Senador Canedo, sendo que o retorno da pista sentido Goiânia é muito longínquo tanto na rodovia como na Avenida Jamel Cecílio, o ideal seria que o espaço fosse acessível pela BR e pelo bairro também. Além disso, são poucas as linhas de ônibus que distribuem para o local; na verdade, só os coletivos intermunicipais que vão para Senador Canedo. Como as áreas vicinais não têm pessoas circulando, o risco para quem quiser andar a pé ou andar de ônibus é muito grande. Soma-se a isso o fato de a região ser marcada por matagais mal iluminados que ainda relembram muito a paisagem daquela região antes da implantação do equipamento.
Do ponto de vista do planejamento urbano, eventos culturais sazonais podem influenciar o sentimento de pertencimento e a ocupação cotidiana dos espaços públicos ao longo do ano, mas desde que feitos com propriedade e fundamento, respeitando e dialogando com as pré-existências do lugar. O Natal do Bem, por sua monumentalidade disneyficante, que combina com a arquitetura do Niemeyer, acaba por reforçar o distanciamento da população com o espaço e com seu uso para outros comportamentos espaciais nos demais meses do ano. Porque, ao quebrar a rotina de exposições de artes plásticas, apresentações de teatro e orquestra, exibições e mostras de cinema, o evento cria um lapso de excepcionalidade extenso, justamente entre novembro e fevereiro, meses de férias escolares e profissionais, o que contribui para a derrocada da finalidade multicultural daquele equipamento, o que já estava em curso com a ocupação do canal estatal no CCON.
O Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON) foi criado para ser o palco mais elegante da música, teatro, cinema e arte contemporânea de Goiânia. Mesmo que possamos discutir a questão da funcionalidade da arquitetura e da localização do equipamento cultural na região mais elitizada da cidade, numa área de difícil acesso e mobilidade, o que favorece as características antissociais de desertificação das obras monumentais de Niemeyer, marcadas pelo uso excessivo de concreto, pouco afim a uma perspectiva de drenagem urbana sustentável, Goiânia, de fato, precisa de um espaço para celebrar a sua relevante produção artística e receber os melhores artistas do Brasil e do mundo. A falta de políticas públicas culturais efetivas em Goiás tornou o Centro um elefante branco com luzinhas de Natal, no final do ano, sendo utilizado durante ano mais como pista de patins e skate para os moradores dos Condomínios Alphaville e Jardins, quando querem respirar fora do “enclave fortificado”. Mas, exclusivamente para isso, não haveria necessidade de gastar uma fortuna para construir uma obra grife de um expoente do star-system da arquitetura, porque há o Parque Marcos Veiga Jardim, ao lado do Autódromo.
DR. FRED LE BLUE ASSIS (dr. planejamento urbano e idealizador do GT GYN 2030)