Enquanto governador, conspirava com o deputado Gustavo Gayer para transformar PL em “puxadinho” de seu vice, filha de Iris Rezende surge como pré-candidata e escancara a falta de tinta na caneta de Caiado.
A política goiana tem dessas coisas deliciosas: o troco vem sempre antes do agrado. E o saldo devedor do Palácio das Esmeraldas com o destino acaba de ser cobrado com juros.
A filiação de Ana Paula Rezende ao PL provocou um terremoto no núcleo governista. Mas não um terremoto daqueles com alerta e evacuação planejada. Foi mais um daqueles que pegam todo mundo no banho, sem toalha e, para usar o jargão político da vez, “de calças na mão”.
A expressão, diga-se, é deliciosamente precisa. Enquanto Ronaldo Caiado passou cerca de um ano tramando nos bastidores com o deputado Gustavo Gayer para sabotar Wilder Morais — numa espécie de novela mexicana com roteiro de série de streaming ruim —, havia um movimento discreto rolando debaixo do nariz do governador. E não, não era o vento.
O objetivo, claro, era transformar o PL em um “puxadinho” de Daniel Vilela. Uma extensão do Palácio, só que com menos móveis e mais sigla alheia. O problema? Gayer precisou ouvir “não” de Wilder, de Jair Bolsonaro e do todo-poderoso Valdemar Costa Neto para finalmente aceitar a derrota. Três nãos. Três. É preciso dedicação para colecionar negativas assim.
E Caiado, acostumado a mandar, sente agora o peso da caneta sem tinta. Não adianta agitar a esferográfica no ar se nada sai do papel.
Aí entra Ana Paula Rezende. A filha do eterno Iris Rezende, que passou a vida inteira abrigada no MDB — partido que, convenhamos, é quase uma herança de família — resolveu pegar a boia e atravessar o rio. E não foi para a margem do governo. Foi para o PL, para assumir a pré-candidatura a vice-governadora. Numa chapa que, obviamente, não é a de Caiado.
A “paulada” — expressão que circula nos bastidores com a precisão de quem sabe o estrago causado — deixou o Palácio atordoado. Consternado. Daqueles dias em que o melhor a fazer é fechar a porta e simular que o telefone não toca.
Enquanto isso, Ana Paula Rezende, que nunca havia deixado o ninho paterno, dá uma aula de política em quem achava que mandava no tabuleiro. Ou, como diriam os mais saudosos, “Tchau, queridos”.