Os alagamentos recorrentes em Goiânia indicam tanto falhas pontuais de manutenção, como esgotamento do modelo de planejamento urbano adotado ao longo das décadas. A cidade teve um incremento da sua população e da sua área construída horizontal e vertical, acarretando uma maior incidência de problemas públicos, como o de drenagem urbana. O desenvolvimento urbano pouco sustentável, que apontou para impermeabilização e adensamento da cidade, impossibilitou a adequação do espaço urbano em relação ao aumento da demanda por infraestrutura de drenagem urbana. A impermeabilização acelerada do solo, especialmente com a expansão viária e imobiliária, contribuiu diretamente para a incapacidade da cidade de absorver as águas da chuva, porque, com a diminuição das áreas de verde urbanizado, tornou-se mais tortuoso o fluxo das águas das chuvas em meio ao labirinto de prédios e avenidas largas, com implicações para segurança e urbanidade da população em alguns espaços públicos e privados, que se tornaram os pontos nevrálgicos da cidade, por risco de alagamentos e deslizamentos.
As mudanças climáticas acarretaram aumentos e diminuições dos ritmos de chuvas previstos para determinados períodos e lugares, tornando as intempéries imprevisíveis ou desproporcionalmente incontornáveis, como ocorreu em Porto Alegre, onde o sistema de diques para contenção de enchentes falhou ou não era compatível com o volume de chuva em 2024. Por isso, é de suma relevância conhecer e divulgar a Agenda 2030 da ONU, cujos objetivos de desenvolvimento sustentável sugerem mudanças de hábitos de vida e consumo. Entre os objetivos sugeridos, temos o de cidade inteligente (ODS 11), que foca em tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis, no que visa também uma melhor gestão de recursos e riscos de desastres, referindo-se tanto a temas como moradia, transporte, saneamento, gestão de resíduos, patrimônio cultural, mas também áreas verdes.
É possível adaptar a infraestrutura existente para que não tenhamos de conviver com alagamentos estruturais por muitos anos. Para isso, estratégias de inclusão e visibilização da geohidrografia como elemento paisagístico (jardins de chuva), natural (descanalização de rio), funcional (reuso) e energético (limpa). Isso mesmo, é possível reaproveitar a água da chuva até mesmo como estratégia de drenagem urbana e que ainda favoreça a transição energética. Por exemplo, por meio de microturbinas em tubulações e o uso de materiais piezoelétricos em superfícies, é possível converter a energia cinética das gotas em eletricidade para sistemas menores, sensores ou até mesmo para complementar a rede, unindo gestão de águas pluviais e geração renovável.
As intervenções urbanas que seriam prioritárias e mais eficazes para reduzir os impactos das chuvas, certamente, seriam a combinação da drenagem, áreas verdes, revisão do uso do solo, mudança no modelo viário, mas, principalmente, divulgação científica e educação socioambiental. Somente por meio da conscientização e responsividade cidadã a população poderá se engajar politicamente por meio das ferramentas de controle popular. É por isso que temos atuado por meio do Grupo de Trabalho Goiânia 2030 para trazer orientações informativas sobre tecnologias já disponíveis para que as águas sejam vistas como um aliado e não o inimigo número um das cidades.
Dr. Frederico Assis (GYN 2030)