Mais verba para o Carnaval do que para a indústria: a conta que chega depois da festa
Enquanto desfiles encantam multidões e movimentam o turismo por alguns dias, cresce o debate sobre a prioridade dada ao financiamento de grandes festas populares em comparação com investimentos estruturais na indústria — setor que gera empregos permanentes, renda contínua e desenvolvimento de longo prazo.
Nos últimos anos, estados e municípios brasileiros ampliaram aportes públicos para eventos carnavalescos, justificando o retorno econômico imediato em áreas como hotelaria, alimentação, transporte e comércio informal. De fato, o Carnaval é uma engrenagem poderosa da chamada economia criativa e tem importância cultural inegável. O problema, segundo economistas e representantes do setor produtivo, surge quando esses investimentos acontecem em detrimento de políticas industriais estratégicas.
A indústria, diferentemente de eventos sazonais, mantém postos de trabalho durante todo o ano, sustenta cadeias produtivas extensas e contribui de forma consistente para a arrecadação de impostos. Além disso, é responsável por inovação tecnológica, aumento de produtividade e fortalecimento da competitividade nacional. Quando fábricas fecham ou deixam de se modernizar por falta de incentivo, os efeitos não são temporários — são estruturais e difíceis de reverter.
O contraste é evidente: enquanto milhões podem ser direcionados a estruturas, cachês e logística de poucos dias de festa, programas de qualificação profissional, modernização de parques industriais e apoio a pequenas e médias indústrias frequentemente enfrentam cortes ou burocracia excessiva. O resultado aparece no enfraquecimento do setor produtivo, na redução de empregos formais e na maior dependência de atividades informais e temporárias.
Outro ponto levantado por especialistas é o tipo de emprego gerado. O Carnaval cria ocupações temporárias, muitas vezes informais e de baixa remuneração. Já a indústria tende a oferecer vínculos estáveis, direitos trabalhistas e possibilidade de crescimento profissional. Em um cenário de desemprego estrutural e queda da participação da indústria no PIB, a escolha de prioridades orçamentárias passa a ter impacto direto na qualidade de vida da população.
Isso não significa desvalorizar a cultura ou o turismo. O desafio está no equilíbrio. Eventos culturais podem e devem existir, mas não como substitutos de uma política econômica consistente. Países que alcançaram desenvolvimento sólido apostaram em industrialização, inovação e educação técnica — pilares que geram riqueza contínua, não apenas picos momentâneos de consumo.
A discussão, portanto, vai além da festa. Trata-se de decidir se o dinheiro público deve priorizar brilho imediato ou bases duradouras. Afinal, quando os confetes são varridos e os trios elétricos silenciam, o que sustenta a economia nos outros 360 dias do ano é a produção, o trabalho e a indústria funcionando.
que existem relações de poder. Quem tem acesso [ao Carnaval]? Está se tornando muito comercial? Para onde vai o dinheiro? Os patrocínios estão sendo reinvestidos nas comunidades e no ecossistema que cria essa incrível criatividade?”, questiona.
As perguntas encontram eco na realidade. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que os grandes patrocínios do Carnaval — majoritariamente oriundos de renúncia fiscal — beneficiam desproporcionalmente os blocos e escolas de maior porte, localizados em áreas nobres ou com maior visibilidade na mídia. Enquanto isso, manifestações periféricas e tradicionais, como blocos de rua em bairros populares e bois de reisado no Nordeste, sobrevivem com migalhas ou desaparecem.
“Temos um modelo que transforma cultura em mercadoria e festa popular em vitrine publicitária”, critica a antropóloga e pesquisadora da Unicamp Helena Katz. “O Carnaval virou um grande negócio, mas os lucros são privados e os custos, públicos. As comunidades fornecem a mão de obra barata, o talento e a tradição; as empresas levam o retorno de imagem e os subsídios fiscais.”