4 de fevereiro de 2026
Artigo

EM DEFESA DA AMAZÔNIA DE GOIÂNIA: Zona Norte com o maior patrimônio natural e hidrográfico é a bola da vez do mercado imobiliário

Imagem reprodução

A Região Norte de Goiânia é uma região estratégica do ponto de vista urbano e logístico em Goiânia. A proximidade com grandes indústrias e com o campus da UFG faz da região um local atraente para moradias uni e plurifamiliares. Como é cortada por vias expressas como Goiás Norte, Perimetral e BR 153, o translado para demais regiões pode ser mais rápido do que ir do Bueno para o Centro em horário de pico. Por ser menos verticalizada e adensada, a região preserva um certo bucolismo, até porque é a região com maior metragem quadrada de áreas de preservação ambiental. Além disso, há uma conexão com vias comerciais históricas como a Avenida Goiás, Bernardo Sayão e a Rua 44. Como polo de comércio tradicional, a Fama e a Feira Hype trouxeram uma série de shoppings e lojas que tornaram o lugar mais cosmopolita, com alto fluxo de turistas e moradores da zona norte. É uma região à parte da cidade, que vive emancipada das demais, o que é condizente com a tendência de policentrismo urbano.

O interesse crescente de construtoras e incorporadoras nessa região deve-se, além de fatores como localização e mobilidade, a comportamento de consumidor, já que tem havido uma mudança no perfil de quem busca moradia e escritório, que não mais buscam concentrar-se nos bairros centrais e cruzar longas distâncias diariamente (microterritorialização), mas sim, próximos de áreas residenciais, desde que haja infraestrutura, meio ambiente, lazer e segurança urbana. Como o congestionamento do tráfego se tornou crônico em Goiânia, em função do alto índice de carro por habitante, o que tornou oneroso demais o deslocamento entre bairros próximos, o setor incorporador quer agora fazer lobby para flexibilizar as regras urbanísticas de zoneamento. Assim, poderão arranhar o céu da região norte e completar o mapa da destruição e devassabilidade da paisagem.

A expansão imobiliária mais morosa e tardia na Zona Norte implicou também na criação de um estoque de terreno com valor mais baixo, valores mais acessíveis, em relação às demais áreas que estão quase que completamente loteadas pelo mercado especulativo. Esse retardamento urbano, na verdade, era estratégico e condizente com um desenvolvimento urbano sustentável. Goiânia já foi toda loteada por prédios na maioria das regiões que o Plano Diretor permitia verticalização. Apesar do loteamento Goiânia II da extinta Encol, a zona Norte, por muito tempo, ficou em segundo plano pelas empreiteiras de prédios por causa da distância e entraves ambientais.

A Zona Norte, por concentrar a maioria das áreas de mananciais protegidas, estava sendo poupada relativamente da expansão de crescimento desenfreado, marcada pela densificação e verticalização contumaz. Por esse motivo, essa região, que está relativamente em um plano de altitude maior do que a média de Goiânia, apresenta um microclima e qualidade atmosférica ímpar, em função também de não ter tanta circulação de automóveis, dando à região uma qualidade de vida e urbanidade ímpar, mas que poderá ser comprometida se for iniciado um processo de gentrificação ali.

A chegada de grandes equipamentos comerciais impulsiona a valorização imobiliária ao redor? A presença de polos como o Carrefour, inicialmente, e, depois, Passeio das Águas ajudou a redefinir a vocação urbana da Região Norte. Um shopping sempre é um polo de criação de pertencimento local e identidade urbana, o que estimulou a consolidação da zona norte como ambiente residencial com vantagens locacionais. A vida líquido-moderna e seus problemas e paranoias de segurança urbana impuseram uma renúncia e exclusão do direito à cidade, no tocante ao usufruto do espaço público, o que faz do shopping o locus ideal de encontros que outrora ocorreriam nas ruas. Com o Shopping Passeio das Águas, a região passou a ter, assim, um marco referencial espacial e comercial equivalente ao Flamboyant na zona sul. Ocorre que essa região é uma área de interesse público para abastecimento hídrico da cidade, não devendo seguir esse modelo de urbanização, voltado, prioritariamente, para o mercado imobiliário. Se perdermos a zona norte, Goiânia vai ficar sem Norte.

Resta saber se esse crescimento está sendo e será acompanhado por planejamento adequado de mobilidade, saneamento e serviços públicos, que concilie desenvolvimento e sustentabilidade de direito e de fato. Para além do impacto ambiental, o desenvolvimento urbano da Zona Norte, que está sendo feito sem planejamento, ou à revelia do que foi planejado, pode acarretar problemas sociais e urbanísticos enormes. Primeiro, porque, justamente, por ter sido pensada como Amazônia da cidade, a região não tem infraestrutura de mobilidade, saneamento e zeladoria na escala pretendida pelo setor imobiliário. Atualmente, é habitada por uma população majoritariamente vulnerável, que vive secundarizada pelos programas e políticas públicas urbanas, culturais, médicas, sociais e esportivas. Segundo, porque, por se tratar de uma faixa territorial extensa e pouco densa, realizar essas obras de aumento da capacidade infraestrutural ficará muito oneroso para o contribuinte. A zona norte é uma área estratégica para a urbanidade e sustentabilidade de Goiânia, e deveria ser transformada de forma gradual, planejada e, principalmente, participativa.

Dr. Fred Le Blue Assis (planejador urbano e idealizador do GT GYN 2030)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *