Enquanto Brasil, China e Rússia condenaram ataques de EUA e Israel ao Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Índia pouparam os bombardeios e criticaram retaliações iranianas
A escalada do conflito no Oriente Médio, iniciada no último sábado (28/2) com ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel ao Irã, evidenciou as profundas divisões existentes entre os países que compõem os Brics. O bloco, que reúne Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia, tem apresentado reações diplomáticas divergentes diante da mais recente crise na região.
Os ataques coordenados por norte-americanos e israelenses atingiram prédios oficiais e alvos civis em território iraniano, resultando na morte do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, além de outros três oficiais do alto comando do governo. Em resposta, o Irã lançou mísseis contra Israel e instalações militares norte-americanas localizadas em países do Golfo Pérsico, incluindo Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Kuwait.
Diante do agravamento do cenário, as reações dos integrantes dos Brics refletiram suas respectivas alianças e interesses geopolíticos.
O Brasil, por meio do Ministério das Relações Exteriores (MRE), emitiu duas notas sobre o episódio. Na primeira, ainda no sábado, condenou a ação israelense e norte-americana, classificando-a como preocupante e ocorrida em meio a negociações que poderiam levar à paz. Na segunda-feira, o governo brasileiro também condenou os ataques promovidos pelo Irã, solidarizando-se com Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e Jordânia, alvos das retaliações iranianas.
Em entrevista à Globo News, o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, embaixador Celso Amorim, reforçou a posição brasileira. “Ninguém é juiz do mundo. Matar um líder de um país, que está em exercício, é condenável e inaceitável. Devemos nos preparar para o pior”, afirmou.
Rússia e China, que mantêm relações mais estreitas com o regime iraniano, adotaram tom mais incisivo. O presidente russo, Vladimir Putin, classificou os ataques e a morte de Khamenei como uma “violação cínica de todas as normas de moralidade humana e do direito internacional”. Já a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, declarou que “o ataque e a morte do líder supremo do Irã é uma grave violação da soberania e segurança do país”, condenando veementemente a ação.
Em posição distinta, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia pouparam os bombardeios iniciais e concentraram suas críticas nas retaliações iranianas. O premiê indiano, Narendra Modi, utilizou suas redes sociais para condenar os ataques à Arábia Saudita “em violação da sua soberania e integridade territorial”. A Índia, que historicamente mantém parceria com Israel no fornecimento de armamentos, tem estreitado relações com o país nos últimos anos.
Divisão expõe limites do bloco
De acordo com um diplomata ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado, o governo brasileiro tem realizado consultas junto a países do bloco, mas não há previsão de uma posição conjunta dos Brics sobre o assunto — diferentemente do ocorrido em julho de 2025, quando o grupo chegou a um acordo e divulgou nota conjunta sobre ataques anteriores ao Irã.
Um interlocutor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou à BBC News Brasil não acreditar que o bloco adote posicionamento coletivo desta vez. Segundo ele, a dimensão atual da crise e o fato de a Índia exercer a presidência rotativa do bloco neste ano inviabilizam um consenso. Na avaliação do interlocutor, as retaliações iranianas atingindo países árabes integrantes dos Brics — como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos — praticamente impossibilitam uma resposta unificada.
Para a professora de Relações Internacionais da PUC do Rio de Janeiro, Ana Elisa Saggioro Garcia, a crise testa a capacidade dos Brics de agir de forma coordenada. “Os ataques expõem as contradições e os riscos envolvidos no processo de expansão do bloco iniciado em 2023. Essa expansão trouxe países do Oriente Médio, deu mais representatividade, mas também trouxe riscos. A presença do Irã sempre foi um ponto de tensão”, analisa.
A especialista acrescenta que não há expectativa de que os Brics se tornem um grupo capaz de agir coletivamente em situações como esta, diferentemente de alianças militares como a Otan. “Eles conseguiram criar um sistema de segurança coletiva no qual, se um é atacado, os outros defendem. Os Brics não são isso, não serão em um período visível de tempo e nem desejam ser”, conclui.
O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e integrante do think tank Brics Policy Center, Pablo Ibanez, atribui parte da falta de coesão ao papel exercido por Donald Trump no cenário internacional. “Os Brics se enfraqueceram com a chegada de Trump ao poder. A forma como ele atua obrigou os países a mudarem suas estratégias. O que se observa é que os Brics estão deixando de estar na centralidade da política externa”, avalia.