4 de fevereiro de 2026
Brasil

Promessa de Lula não será possível ser cumprida segundo Presidente do INSS

Imagem reprodução

A promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de zerar a fila de espera por benefícios do INSS esbarra em uma realidade administrativa crítica. Em entrevista à VEJA, o presidente do Instituto, Gilberto Waller Júnior, afirmou que zerar completamente a fila “nunca” será possível, devido ao fluxo contínuo de cerca de 1,3 milhão de novos pedidos a cada mês. Dados oficiais de novembro de 2025 revelam que o total de requerimentos aguardando análise bateu um recorde histórico, chegando a 2,9 milhões de pessoas — número quase três vezes maior do que o registrado quando Lula assumiu o governo, no início de 2023.

A declaração de Waller coloca em foco o abismo entre a promessa política e a capacidade operacional do órgão. Ele redefine o objetivo prático: “O que você precisa é rodar essa fila”, garantindo que os 1,3 milhão de novos pedidos mensais sejam analisados dentro do prazo legal de 45 dias. Atualmente, dos 2,9 milhões totais, cerca de 1,6 milhão de processos já ultrapassaram esse limite, configurando a “fila efetiva” que preocupa o instituto.

Esforços para aumentar a capacidade de análise

Waller, que assumiu o INSS em abril de 2025 após um escândalo de desvios que afastou a gestão anterior, detalhou à reportagem as medidas em curso para tentar reverter o crescimento da fila. O principal problema estrutural é a redução drástica do quadro de servidores, que caiu de mais de 40 mil em 2010 para os atuais 18 mil.

Entre as iniciativas recentes, destaca-se a nacionalização da fila de espera, implementada em 19 de janeiro. Anteriormente regional, a nova regra permite que analistas e peritos de estados com pouca demanda, como os do Sul e Sudeste, atendam também pedidos de regiões com maior gargalo, como o Nordeste — onde a espera média chega a 188 dias. Essa medida é atrelada a uma regra de bônus, que funciona como uma hora extra por análise adicional feita.

Segundo Waller, os primeiros resultados são promissores: apenas na primeira semana da nova sistemática, foram realizadas 118 mil análises extras. O presidente projeta que, mantido esse ritmo, a capacidade mensal do instituto pode saltar dos atuais 1,1 milhão para cerca de 1,5 milhão de análises. Se confirmada, essa projeção colocaria a capacidade de processamento finalmente à frente da entrada de novos pedidos (1,3 milhão/mês), permitindo pela primeira vez a redução do estoque acumulado. Waller estima uma queda de até 20% na fila “em curto prazo”.

Desafios operacionais e a “fila dentro da fila”

Além da escassez de servidores, o INSS enfrenta problemas operacionais que incham os números. Waller citou a existência de múltiplos pedidos duplicados para um mesmo benefício, um fenômeno comum que sobrecarrega o sistema sem necessidade. “Encontramos casos de uma mesma pessoa ter cinco pedidos do BPC negados no mesmo ano, só que ela entra com os cinco pedidos ao mesmo tempo”, relatou. O instituto trabalha no desenvolvimento de mecanismos para que o sistema identifique e trave automaticamente essas duplicidades.

Em nota oficial enviada à VEJA, o INSS reafirmou seu “trabalho incansável para cumprir as diretrizes da Presidência da República” e destacou que a atual gestão herdou um cenário difícil, marcado pela redução de servidores e esquemas de desvios. O órgão reforçou que o foco técnico é garantir que o volume mensal de pedidos seja analisado dentro do prazo legal, caminhando para a estabilização e, posteriormente, redução do acúmulo histórico.

A situação deixa milhões de brasileiros, que dependem de aposentadorias, auxílio-doença ou do Benefício de Prestação Continuada (BPC), em um prolongado estado de incerteza financeira, enquanto o governo busca soluções estruturais para um problema que se agravou significativamente durante o mandato.

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