19 de maio de 2026
Artes

Silêncio do (pop)rock em Goiânia e a polarização Sofrência x Underground

Fred Le Blue Assis (GYN 2030)

 

Fred Le Blue Assis (GYN 2030)

Há 20 anos havia uma ambição de que Goiânia se firmasse como a principal capital do rock underground (“Seattle brasileira”), fazendo contraponto ao sertanejo que nunca fez universidade. Até Bruno e Marone, as poucas duplas de sucesso, hoje consideradas clássicas, se radicavam ou orbitavam em torno do showbussiness de Rio e São Paulo sem produzir uma indústria da música rural urbanizada.
O crescimento do agronegócio teve no urbanejo o principal veículo de autoafirmação do neoconsevadorismo das elites do interior do Estado, cujos filhos migraram para cidade visando fazer universidade enquanto, matavam saudade na aula de sinuca ouvindo sertanejo, que, talvez, só por isso, “universitário”. Comprando “espiões” prediais com milhos transgênicos, ironicamente contribuíram, juntamente, com o aumento migracional interestadual, para o crescimento da setor de imóveis verticais, inclusive  no setor Universitário, que está privando Goiânia ironicamente, justamente,  de paisagem horizontal tão característica do meio rural.
O primeiro sinal de retraimento da projeção do rock da cidade, mais do que da MPB e regional, que são blindados pelas politícas culturais, foi a fantasmagorização do pop rock e rock comercial, que teve na Rádio Interativa um dos grandes incentivadores. Em parte, isso se deve ao fato da cena underground não ter incluído esse estilo no seu portfólio em franca expansão na primeira década do século 21, o que a longo prazo, no entanto, foi enfraquecendo a própria cultura alternativa, que é mais próxima do rock radiofônico do que do sertanejo ultrassônico. Em situação de fogo morto, apesar de ainda ter alguns guetos como algumas casas noturnas e Festivais musicais e meia dúzia de bandas celebradas nacionalmente e até internacionalmente, hoje o underground é que está na berlinda. A concorrência com outras pick-ups, não dos agroboys, mas dos DJs com seu dance music, hip-hop, trap e funk diminuiu os espaços e momentos do rock alternativo,  que costuma demandar mais parafernálias técnicas e humanas.

Hoje somos vítimas da ditatura do sertanejo sofreeeeeeente em supermercados, academias e sinaleiros, um verdadeiro estupro auditivo de uma música grandiloquente, pouco edificante, feita sem poesias e pausas, quase sempre tocada com volumes no talo, apesar de serem produzidas por excelentes músicos, em geral, provindos dos demais gêneros  silenciados por não serem sustentáveis financeiramente, como até mesmo, o jazz e heavy metal (isso explicaria algumas vinhetas metaleiras em Zezé di Camargo, o que nós dá certa nostalgia desse tempo, quando ainda havia rock na linguagem musical sertaneja e não só nas vestimentas).
Apesar da resistência comportado do rock indie no Martim Cererê, que depende do Governo do Estado para não sumir do mapa, sustentar a cena rockeira autoral ainda, o seu tribalismo de gueto não contribui para que o estilo ecoe em todas as paisagens sonoras da cidade como um todo. E como o pop e o rock, adormecidos por aqui, é que teriam mais condições de circular, o resultado é uma invisibilização e estigmatização do rock goianiense marginal botafoguense.
Por outro lado, mesmo que de forma subliminar, sabemos que a (auto)censura musical do rock e poprock tanto pelo sertanejo pré-universitário, como pelo “undergroundnejo” tribalista, tem como desdobramentos na política e nas políticas públicas sanitárias, ambientais, sociais, humanas, urbanas e culturais. Isso porque a crônica sertaneja e sua crítica de costumes para uns, amarração pro amor (mal feita) pra outros, raramente aborda a questão do machismo, sustentabilidade e democracia, p. ex.. Ou seja, salvo raras exceções, não contribui para paz social e nem mesmo psicológica, além de prestar um desserviço à saúde pública, por sua recorrente apologia ao consumo excessivo de álcool como estilo de vida socialmente desejável e aceitável, como fizera a indústria do cinema americano com o cigarro que se transformou em fetiche sexual. 
Apesar do rock não ser santo, não me lembro de nenhuma banda com exceção do Planet Hemp, ou gêneros jamaicanos, que tivesse uma associação tão intermitente com usos de substâncias químicas, como o sertanejo da atual safra, que têm Goiânia como entreposto cultural e econômico. Está aí a Rádio Brahma para não me deixar mentir, bem como, AMBEV patrocinando diversos eventos e Festivais sertanejos locais e nacionais (Circuito Sertanejo, p. ex.).
Apesar de haver espaço para o Rock clássico nacional e internacional ressoar na Rádio Rock, no Bolshoi, no Vikings e no Woodstock e outros redutos do velho e bom rock and roll, a verdade é que  não há espaço para o rock comercial local autoral, nem mesmo em recreios nas escolas, como costumava ocorrer no Colégio Dinâmico. O próprio público é radical, no sentido de preterir essas bandas da cidade, o que levou a um estrangulamento de opções de uma espécie de terceira via. Por outro lado, Brasília segue emprestando memória musical rockeira radiofônica para Goiânia, porque Goiás parece ter uma aversão ao rock com refrão. 
O cenário atual em Goiânia é composto por bandas covers que pagam para tocar, porque costumam ser preteridas de editais públicos e não encontram casas de show receptivas ao gênero. A não ser que seja uma banda de baile e eventos bem ecléticos, ter uma banda  Rock em Goiás, não segue uma trajetória de pouca projeção midiática e cultural, tendo se tornado, como o Jazz e Blues, um produto de luxo para sobrevivência cultural em Goiânia.

Fred Le Blue Assis (GYN 2030)

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